O turista versus o viajante

O turista não contempla; fotografa. Muitas vezes nem sequer vê: apressado e cansado é um caçador de imagens, de ícones que leva para casa, de guias e de experiências gastronómicas. Quando aportam gigantescos hotéis flutuantes no cais de Lisboa, nas ruas da cidade cheira a protector solar como na praia e todos correm a comprar umas caixas de pastéis de nata e umas garrafas de vinho. Dizem que é muito bom para a economia. Parece que sim. Para o ambiente não é. Como têm pouco tempo viajam em autocarros de luxo que entopem as ruas e fazem todos os portugueses que têm o seu dia a dia no centro histórico chegar atrasados a todo o lado e a respirarem um ar mais poluído em dia de invasão turística. Hoje 6 cruzeiros espalharam pelas zonas históricas 18 000 turistas. É demais num só dia. Os políticos gostam por causa dos índices da exportação, mas para um ser contemplativo como eu, uma vez destruída a paz, não há sustentabilidade económica que o conforte ou conforme.

Pelo contrário, embora sinta nos pés fortes raízes a Portugal, estimo o cidadão do mundo, o viajante aventureiro que se perde em ruas desconhecidas e atravessa becos sem saber onde vão dar na tentativa de captar a vida local: sentir os cheiros e os sons, as vozes das pessoas, ver a roupa lavada estendida ao sol e os pombos a beber água nas fontes dos jardins, notar as marcas do tempo nas pedras da calçada polidas pelo desgaste, conhecer costumes e tradições, mergulhar em bairros diversos onde a vida pulula é a missão do viajante. Este não recolhe imagens e ícones; tenta experienciar a vida local. Este é o viajante sem horário a cumprir que flui e goza o sol dos dias sem protector solar, sem ícones, só pelo gosto de viajar, ou seja, de sair de si, da sua órbita, e entrar na do outro, na cultura real e viva como a fazemos todos os dias. Parece-me que isto sim é viajar.

Transient


Posted on June 17, 2014 .