Super-heróis!

 O tabu da pós-modernidade

A morte não é um tema pacífico. Cada religião lhe reserva um culto diferente sempre baseado na homenagem prestada pelos parentes ao corpo do defunto que ganha este nome porque já não faz parte do mundo dos vivos. Aqui não interessam muito as diferentes práticas por mais exóticas que sejam, desde o envolvimento do cadáver num pano branco antes de este ser deitado às chamas ao ritual de dançar com o cadáver ao fim de Sete anos de sepultura.  Há para todos os gostos e a encenação é variável. A vida no Além é outra história e a Idade Média cristã soube até inventar o Purgatório para os crentes encomendarem missas para salvar os que estavam no limbo entre o Paraíso e o Inferno pelas quais pagavam à Igreja. De tudo um pouco acontece em volta da morte que afinal é apenas um fim natural.

Hoje maquilha-se o morto e faz-se congelar para apagar o cheiro a putrefação e aligeirar as rugas da morte. As crianças são afastadas por proteção. E os esqueletos dançam na sua imaginação. Ensina-se aos pequenos o eufemismo de que o avô agora é uma estrela, aquela que aparece todas as noites por cima do último andar do prédio da frente. “-Lá está o avozinho!” – diz a avó todas as noites.

Antigamente havia outros tabus: os bébés antes vinham de França, eram trazidos no bico de uma cegonha. A rapariga crescia e desabrochava mulher sem conhecer os mistérios da metamorfose do corpo que a tornavam mulher.O sexo era escondido, pai e mãe elevados a anjos sem sexualidade, pois havia a cegonha. Falo dos tempos sombrios de Salazar ou de outras trevas.

Na sociedade actual, a nossa, ocidental do século XXI surgiu um novo mito: o do super-homem. Os heróis do cinema e dos livros (digo livros e não literatura), os super-heróis estão em fermentação e em explosão. Desde criança me sinto irritada com os poderes hercúleos dos super-heróis com as suas sete vidas, mas o problema é meu.

Laica como sou, não compreendo o tabu tecido em volta da morte e dos seus cadáveres. Parece-me tratar-se apenas do fim biológico de um ser, como uma maçã que cai da árvore mãe desprendendo-se no tempo certo.

A sociedade tenta apagar o efémero porque estimula ao ímpeto de conquistar e se há um fim perde-se a razão de conquistar porque depois se vai perder. Enquanto a maquilhagem e o perfume “tapam o sol com uma peneira”, o comum dos mortais vai travando batalhas para conquistar não se sabe o quê nem para quê, uma vez que dele não ficará nem rasto.

O defunto simplesmente pertence ao nada, ao vazio: é coisa nenhuma. E é dessa verdade nua e crua que os adultos defendem as crianças para elas acreditarem na grandeza humana afinal tão pequena.

Fernanda Ferreira

Contextualização, filmes, livros com super-heróis.

Posted on August 13, 2014 .