A obsessão do coleccionador

Em criança coleccionava pratas de chocolates, guardava-as como tesouros entre as folhas dos livros. E não me lembro de coleccionar mais nada. Talvez com um carácter diferente tenha depois coleccionado acessórios de moda, livros, coisas comuns. Mas as pratas de chocolates eram tesouros incomparáveis.

 Conheço actualmente pessoas que coleccionam objectos vintage, especializando-se em áreas como brinquedos, malas e sapatos de senhora, cartazes, fotografias, aparelhos pequenos como máquinas de barbear, gira-discos, cafeteiras eléctricas e não sei que mais.

A questão muitas vezes é onde arrumar tudo isto e mesmo as pessoas que apreciam espaço multiplicam os objectos e compram e compram. Por vezes têm de deitar fora. Mas é como se lhes doesse os ossos, e os objectos em vez de irem para o lixo vão para arrecadações ou  sótãos que são lugares irracionais da casas, isto é, lugares sem ordem, sem critério, onde se amontoam  toneladas de inutilidades – os tesouros dos coleccionadores.

Coleccionar é sempre uma obsessão. E o objecto mais perigoso para o coleccionador (que é um predador nato) é o dinheiro. Há pessoas que coleccionam casas, prédios, somas de dinheiro imensas e até outras pessoas. O impulso do predador lança-o na captura, e, se captura mais que o necessário, claro – armazena.

O colecccionador de dinheiro é um tipo perigoso agarrado à sua heroína não suporta a ideia de o seu pequeno ou grande império soçobrar e rende-se à acumulação. Teme gastar como poderia temer  a precisão de uma catástrofe climatérica, come pouco, veste-se mal, só vai de férias para onde é barato e escolhe os destinos por tratar-se de um bom negócio, não estima a família, menos ainda os amigos e detesta-se a si próprio,  por isso normalmente anda mal disposto porque não é livre desde o dia em que começou a coleccionar esse bem.

Nas férias não sabe estar de férias, nas festas não se diverte, aos fins de semana fica impaciente, não dorme e tudo é sem razão excepto o coleccionismo. Como vive com muita adrenalina um dia morre de súbito sem dar por nada e perde tudo porque já não é nada.

Posted on February 10, 2015 .